A vida interior e a verdadeira união com Deus

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Santa Teresa d’Ávila e Santo Afonso, sobre a vida interior e sobre a verdadeira união com Deus.

santa-teresa-de-jes--sSanta Teresa convida-nos a considerar a nossa alma como “um castelo todo de diamante ou feito de cristal”, onde há muitos cômodos e no centro de todas estas tem a mais principal onde se passam as coisas mais secretas entre Deus e a alma. A santa diz em seu livro, castelo interior, que a oração é a porta de entrada para o       Santa Teresa D’Avila                                     primeiro cômodo, advertindo com quem                                                                          falamos e o que pedimos.

Existem pessoas que ficam, do lado de fora, e que não pretendem entrar, e não fazem o mínimo esforço,  doentes espiritualmente e dispostas a permanecer em coisas exteriores, superficiais, que não há remédio nem parece que possam entrar em si mesmas de tão afogadas nas coisas mundanas. Outras entram no castelo e, embora estejam muito metidas no mundo, têm até bons desejos, mas não passam disto. Não passam do primeiro cômodo da alma. Ficam na superfície.  Vivem cheias de mil negócios pra fazer.  “Muito atarefadas em nada fazer”.  Mas, como está escrito nos Evangelhos,“o coração se lhes vai para onde está o seu tesouro”. Propõem algumas vezes, para consigo mesmas, desocupar-se, mas, Deus acaba ficando em segundo plano. Não rezam “por falta de tempo”. Não têm intimidade com o Senhor.

Teresa nos mostra a importância do autoconhecimento, em meio a oração, ou seja, de entrarmos em intimidade com nossa própria fraqueza o que nos leva à verdadeira humildade e percebermos que, de fato, sem Deus nada podemos fazer. Santo Afonso a este respeito nos diz em sua obra intitulada oração que “o homem foi formado em tal estado que só Deus é toda a sua força. Deste modo o homem é inteiramente incapaz de efetuar a sua própria salvação”.

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Santo Afonso Maria de Ligório

Santo Afonso continua na mesma obra dizendo que: “os auxílios da graça que nos levam à salvação, Deus só as concede a quem reza”. Por isso, Santa Teresa insiste em nos fazer conscientes, através do autoconhecimento, de estarmos numa situação de luta e pobreza pessoal e sem nos desanimarmos, na humildade, pedir a Deus que nos ajude a nos libertarmos das nossas ataduras, pois sem a ajuda de Deus, diz a santa, não somos mais que vermes.

Santa Teresa nos estimula a sempre trocarmos de cômodos, a avançarmos em nosso castelo interior. A cada passo que damos na oração, mais golpeados somos pelas tentações mundanas. Diz a santa que: “imersos em nossos pensamentos, negócios, prazeres e seduções do mundo, ora caindo em pecados, ora levantando-nos, apesar de tudo, Deus nos preza sumamente que o amemos e desejemos sua companhia”. Como nos diz o salmo 62, devemos ter sede de Deus, como terra sedenta e sem água.

Ainda a respeito das tentações mundanas, como nos alertou Teresa, santo Afonso colabora dizendo que a “oração é a mais poderosa arma para nos defendermos dos nossos inimigos e quem não se serve dela está perdido”. Afonso ainda nos lembra o pecado de Adão dizendo que o mesmo caiu no pecado porque não rezou.

Afonso cita, em seu livro sobre a oração, São Carlos Borromeu, este diz que “a oração é o princípio, o progresso e o complemento de todas as virtudes. Por isso nas trevas, nas misérias e nos perigos em que nos achamos, não temos nenhum outro em quem lançar nossas esperanças, senão levantar nossos olhos a Deus e pela oração impetrar sua misericórdia a nossa salvação”.

Não podemos achar que por estarmos avançando os cômodos de nossa alma estaremos salvos. É preciso ter a humildade de saber que sempre há em nós algo para santificar. Por isso, lembremo-nos do relato do jovem rico em Mateus 19, 16-22.  Teresa nos alerta que existem muitos cristãos como este jovem rico, “são pessoas estupendas, que tudo têm cumprido desde a juventude, de comunhão diária, de grupo paroquial, catequistas e até consagrados, daqueles em quem Jesus Se compraz e olha com carinho. Mas, quando escutam aquilo de “vende o que tens… e depois vem e segue-Me”, voltam as costas com tristeza”.  Como o jovem rico, às vezes temos um apego excessivo à própria vontade e às próprias idéias. Santa Teresa, chama isso de “adolescência espiritual”.

Teresa d’Ávila nos previne que o amor que prevalece nestas pessoas é o amor a si mesmas e não a Deus. É preciso muita determinação para sair deste estado: Deixemos a nossa razão e temores nas mãos de Deus. É preciso desapego. Diz-nos santo Afonso que “o coração do homem jamais encontrará a verdadeira paz, senão se livrando de tudo o que não é de Deus”.  Humildade é o remédio de todas as feridas: é a receita de Teresa, pois este caminho para a santidade será mais rapidamente percorrido se haver profunda humildade; aqui que está o dano das pessoas que não passam adiante, no crescimento espiritual. A perfeição não está nos gostos, mas em quem ama mais.

Para ainda avançarmos mais um pouco nos cômodos de nossa alma Teresa nos alerta sobre as boas companhias.Porque para avançar para os cômodos mais profundos de nossa alma será de grande proveito conversar e refletir com quem já está desapegado das coisas mundanas, daquilo que não vale nem enche a alma. É ter boa conversa, e ter a humildade de perceber no outro o frescor da santidade. Buscar leituras que dignificam a alma. Enfim, quem ama a Deus, busca as coisas que são de Deus. Por isso, repito, a perfeição não está nos gostos, mas em quem ama mais.

a-pratica-do-amor-a-jesus-cristo-carvalho-afonso-ligorio-pires-de-8572004408_300x300-PU6eb2a138_1Santo Afonso, em sua obra, a prática do amor a Jesus Cristo, contribui a respeito do amor quando diz que: “Uma pessoa que ama a Deus só tem intenção de unir-se inteiramente a Ele”. Afonso na mesma obra ainda nos diz: “Jesus, sendo Deus, merece todo o nosso amor. Ele nos amou de tal modo que nos colocou, por assim dizer, na necessidade de amá-lo ao menos por gratidão por tudo que fez e padeceu por nós. Muito nos amou para ser amado por nós”. A prova mais concreta para saber se estamos amando a Deus ou não está no amor ao próximo. O próprio Jesus alerta “quem diz que ama a Deus e não ama seu próximo, é mentiroso”. Lembremos, também, dos conselhos de Jesus no Evangelho de Mateus 25, 31-46, leia por gentileza em sua Bíblia.

Por isso, irmãos, nos livremos das ocasiões que nos fazem ofender a Deus. Ocasiões que nos levam a pecar. É interessante perceber que quanto mais mergulhamos em nossa alma pela oração, mais somos tentados. Teresa nos alerta: “empenho-me tanto neste aviso de não se porem em ocasiões de pecado, porque o maligno faz mais questão de ganhar uma desta almas (próximas a Deus) do que as menos achegadas a Deus”. Por mais que sejamos tentados não desistamos de orar. Como diz Afonso, “quem reza se salva e quem não reza, se condena”. A alma aqui se condena pelo fato de dialogar com o pecado e não com Deus.

Somos inclinados a pecar e inclinados à santidade. Muitas vezes pecamos porque dialogamos com nossas fraquezas. Nos deleitamos, muitas vezes, com aquilo que é nossa maior fraqueza. Ficamos vagando. Por isso é importante o autoconhecimento, como nos alertou Teresa anteriormente. Padre Lourenço Kearns, missionário redentorista, sempre diz que é preciso muita honestidade neste sentido e que é preciso fazer um mergulho em nosso coração e ali entrar em contato com nossas fraquezas no intuito de nos previnir-mos.

moradasAqui, alerto, não basta parar de cometer alguns pecados. Como diz Teresa e Afonso, a perfeição está em quem ama mais. Como diz um padre que não recordo o nome, “o pecado nos deixa abaixo de zero, parar de pecar nos deixa no zero, para ficarmos acima do zero é preciso amar”. Aqui a caridade se faz necessária, ou seja, amar o próximo como a si mesmo. A caridade é o ápice do amor, pois quem ama o próximo ama a Deus. Teresa, nas entrelinhas de sua obra, castelo interior, afirma que quanto mais mergulhamos nos cômodos de nossa alma mais perto de Deus ficamos e mais caridosos também ficamos. A caridade nos leva à perfeição da alma.

 

São João Crisóstomo sobre os frutos da caridade nos diz que: “quando o amor de Deus se apodera de uma pessoa, produz nela um insaciável desejo de trabalhar pela pessoa amada. A pessoa sempre se aflige por fazer pouco para Deus, e se lhe fosse lícito morrer e consumir-se inteiramente por Ele, de bom grado o faria”.

Santo Afonso, na prática de amor a Jesus Cristo, cita são Francisco de Sales que diz: “como se engana a pessoa que faz consistir a santidade em outras coisas e não em amar a Deus! Uns põem a santidade na austeridade ou em dar esmolas, outros na oração ou frequência dos sacramentos. Para mim, não conheço outra santidade senão a de amar a Deus de todo o coração; todas as outras virtudes sem este amor não passam de um montão de pedras”.

uniãoTanto Afonso quanto Teresa são claros em dizer que a verdadeira união do ser humano com Deus se faz pela oração e pela caridade. Oração sem obras revela uma fé morta. A este respeito diz santa Teresa: “há certas pessoas que vejo muito curiosas por saber o grau de sua oração, tão concentradas, ao rezar; que parece não se mexerem, nem agir com o pensamento, pelo receio de perder um pouco do gosto e da devoção. Vejo que pouco entendem do caminho por onde se alcança a união com Deus. Pensam que o essencial está nessas exterioridades. Não, irmãos, não é assim! O Senhor quer obras. Se vês uma enferma a quem podes dar algum alívio, não tenhas receio de perder a tua devoção e compadece-te dela. Esta é a verdadeira união com a vontade de Deus”!

Por fim, Afonso e Teresa concordam que a finalidade de todos os nossos esforços deve ser, portanto, adquirir um verdadeiro amor a Jesus Cristo através da oração que nos leva à caridade. Afonso, na prática de amor a Jesus Cristo, apresenta-nos os sinais do verdadeiro amor descritos pelos mestres da vida espiritual, inclusive, é claro, santa Teresa d’Ávila. Tais sinais são:

O TEMEROSO, o seu “medo” é dar desgosto a Deus.

O GENEROSO, cheio de confiança em Deus, e tudo faz para a sua glória.

O FORTE, pois resiste a todas as más inclinações mesmo nas mais violentas tentações, e nos mais profundos sofrimentos.

O OBEDIENTE, porque procura seguir imediatamente a voz de Deus.

O PURO, amando somente a Deus e só porque Deus merece ser amado no próximo.

O ARDENTE, porque desejaria inflamar todos os corações, vendo-os consumidos pelo amor de Deus.

O ARREBATADOR, pois arrasta a alma e a faz viver como que fora de si mesma, como se não visse, não ouvisse e não tivesse mais os sentidos para as coisas mundanas. Atenta em só amar a Deus.

O UNITIVO, unindo estreitamente a vontade da criatura à vontade de seu Criador.

O DESEJOSO, porque enche a alma do desejo de deixar as coisas mundanas para unir-se perfeitamente a Deus no paraíso, a fim de amá-lo com todas as suas forças.

Pe. Donizete Araújo, CSsR.

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