Jesus, Rei Servidor

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Jesus curando

“Eis o vosso rei!”. É assim que, no Evangelho de São João (19,14) Pôncio Pilatos apresenta Jesus ao povo judeu. De fato, Jesus é Rei. Mas de que forma ele apresenta sua realeza?

O ano litúrgico da Igreja começa com o tempo do Advento, tempo de preparação para o Natal do Senhor onde o Rei do Universo despe-se de sua glória e nasce em uma humilde manjedoura, entre pessoas simples e animais; conclui-se o ano litúrgico com a Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo.

Tomemos o Evangelho de São João (13, 1-20) onde o evangelista relata o lava-pés. Nessa passagem bíblica, através das palavras e dos gestos de Jesus, ele nos apresenta a sua realeza. A passagem bíblica nos mostra que Jesus tira o seu manto, símbolo do poder real, e cinge-se de uma toalha. Quatro pontos destacam-se nessa cena:

  • Jesus levanta-se. Não fica sentado, como quem deseja ser servido. Ele toma a atitude de quem sai do seu conforto e vai na direção dos discípulos.
  • Jesus tira o manto. Ele despe-se daquilo que poderia identificá-lo como Rei, com o poder.
  • Jesus toma a toalha, símbolo do serviço.
  • Jesus lava os pés dos discípulos e os enxuga com a toalha.

Quantas lições aprendemos com esse Rei!

Aprendemos que, como Jesus que esvazia-se de si mesmo, colocando-se na condição de servo, devemos deixar de lado nosso egoísmo e ir encontro dos outros.  Ao trocar o manto real pela toalha, objeto de serviço, o Senhor nos propõe que sejamos disponíveis, generosos, e que devemos nos comprometer com os mais necessitados, colocando-nos em último lugar.

Para lavar os pés é preciso inclinar-se, acolhendo os outros com alegria, sem discriminações, e ao enxugar os pés calejados dos discípulos, o Rei nos ensina a amenizar as dores de tantos irmãos que estão doentes, marginalizados, discriminados.

Ao relatar que Jesus lava os pés dos discípulos, São João não mostra de quem Jesus lavou primeiro os pés. Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, tem que esperar sua vez: quando se trata de servir, deve ser igual a todos, pois para Jesus não há privilegiados, somos todos iguais. E se Jesus trata a todos igualmente, assim deve proceder os seus seguidores: somos uma Igreja de iguais.

É importante que observemos ainda a atitude de Pedro, que em um primeiro momento impede Jesus de lavar seus pés. O Evangelho nos diz que se Jesus, que é Mestre e Senhor, lava os pés dos discípulos, Pedro deve imitá-lo lavando os pés de outros. Assim, Jesus deseja quebrar a noção de uma Igreja onde quem é superior é servido por quem lhe é inferior. Pedro, ao pedir que Jesus lave-lhe o corpo todo e não somente os pés, mostra que nada compreendeu a respeito do gesto de Jesus. Não trata-se de banhar-se, limpar-se, mudar o “visual”, mas trata-se de mudar de mentalidade!

O relato do lava-pés mostra-nos um Jesus que é Deus mas que se faz humano; sendo Rei do Universo, esvazia-se de sua glória e pela Encarnação, se faz um de nós. Não identifica-se com um rei que fica sentado em seu trono esperando ser servido, mas que coloca a toalha e pratica um ato próprio de servo: lavar os pés dos discípulos.

Lemos no relato de São João que Jesus amarra a toalha na cintura mas não encontramos em lugar algum o momento em que ele tira a toalha. Entendemos assim que o evangelista nos mostra um Deus que é Rei servidor. Mas ele serve não apenas por um momento: é um Rei que continua a servir sempre. O serviço faz parte de Jesus e, portanto, deve fazer parte da vida do cristão.

Este momento em que nos preparamos para comemorar a vinda desse Deus feito homem nascendo em nosso meio, é momento privilegiado para seguir o exemplo de Jesus: Se ele, o Rei do Universo, lavou os pés dos discípulos, devemos nós também nos despir de nossa mentalidade de querer ser vistos e reconhecidos na comunidade, buscando sempre a atitude do serviço.

É hora de decidirmos ser a Igreja da toalha, Igreja servidora, que se coloca a serviço na defesa dos que mais sofrem, daqueles que não têm defesa. Mas é preciso ter coragem para cingir-se da toalha do serviço, a fim servir na alegria e testemunhar, em nossa vida, os gestos praticados por Jesus.

“As exortações bíblicas (…) convidam, com tanta determinação, ao amor fraterno, ao serviço humilde e generoso, à justiça, à misericórdia para com o pobre. Jesus ensinou-nos este caminho de reconhecimento do outro, com as suas palavras e com os seus gestos” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 194).

Edilson Costa

Ministro da Eucaristia do Santuário

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