Café solidário: o trabalho com os pobres durante a pandemia

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Aqueles que conhecem o Centro Redentorista Santo Afonso (CRSA), sabem que o local é bastante movimentado durante todos os dias da semana. Além das atividades pastorais, como encontros, retiros e reuniões; o carro-chefe é a ação social, com atendimento psicológico, jurídico, triagem para a Comunidade Terapêutica, reforço escolar, fonoaudiologia, fisioterapia, aulas de esporte, musicalização, entre outros.

Com o início da pandemia, em março de 2020, o CRSA fechou as portas para os atendimentos, mas não para a SOLIDARIEDADE. As famílias em situação de vulnerabilidade, bem como as instituições cadastradas, continuaram recebendo cestas básicas para que, ao menos, o alimento não faltasse…

Mesmo assim, havia uma inquietação: como aproveitar a estrutura do CRSA para fazer mais pelo próximo? A resposta veio de uma parceria com a Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional da Prefeitura de Curitiba, através do programa Mesa Solidária.

Mesa Solidária

O Mesa Solidária é uma ação da Secretaria Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (SMSAN) em parceria com instituições religiosas, organizações não-governamentais (ONGs) e movimentos de apoio às pessoas em situação de rua, que cedem espaços e apoio logístico para as refeições.

Lançado no fim de 2019, o programa oferece, de forma gratuita, diariamente, marmitas e lanches nos restaurantes populares da cidade e nas instituições parceiras. O atendimento é feito por equipes da prefeitura e voluntários, que adquirem, preparam e servem os alimentos. A proposta é oferecer mais dignidade a quem está em risco social, proporcionando um espaço limpo e confortável para se alimentar.

Café Solidário

Dentro do Mesa Solidária, nasceu o Café Solidário, um projeto do Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro de Curitiba (PR), que tem como objetivo complementar a refeição diária dos moradores em situação de rua. Assim, um grupo de voluntários se reúne diariamente para preparar os lanches, servidos no refeitório do CRSA, das 16h às 18h.

“No começo, só oferecíamos o café, o banho e as roupas. Hoje, após seis meses de projeto, já conseguimos atendimento médico, psicológico, fisioterapia, fazemos currículos, encaminhamos para tirar a Carteira de Trabalho e a segunda via de documentos, buscamos oportunidades de emprego, pagamos aluguel social, passagem de ônibus e também encaminhamos os dependentes químicos para tratamento”, cita Carlos Henrique Staes, idealizador do projeto e coordenador do grupo de Missionários Leigos Redentoristas do Santuário.

Carlinhos, idealizador do projeto, fazendo o momento de oração com os moradores em situação de rua.

Carlinhos, como é popularmente conhecido, conta que embora os alimentos para o café sejam provenientes de doação, o dinheiro para as outras iniciativas citadas, muitas vezes acaba saindo do bolso dos próprios voluntários. “Temos uma benfeitora que se comprometeu a pagar o gás de cozinha mensalmente e também ganhamos uma máquina de lavar roupas de 13kg para lavar as toalhas de banho e as roupas sujas dos acolhidos.” Ele diz que até os cachorros dos moradores de rua são atendidos por uma médica veterinária parceira, mas ainda falta verba para colocar outras ideias em prática, como oferecer cursos de capacitação, por exemplo.

Sobre os voluntários, o grupo comprometido é pequeno, em torno de dez pessoas fixas. Mas, como alguns moradores de rua acabam indo no café todos os dias, eles criam vínculo e também passam a ajudar. “É o caso do Jonathan e do Piauí. A gente deu a oportunidade para um cuidar do banho e o outro cuidar da fila. Eles já caminham conosco há três meses, pararam de usar drogas e ambos já estão trabalhando. Simplesmente porque tiveram uma oportunidade para mudar de vida e não a deixaram passar.”

Como a realidade de uso de drogas é muito presente entre a população que vive nas ruas, a Comunidade Terapêutica Perpétuo Socorro (CTPS) também oferece uma parceria. Marcelo Fortunato, diretor da CTPS, menciona que mais de 20 homens do Café Solidário já foram acolhidos para o tratamento. Carlinhos complementa: “O Marcelo vai no café todas as quintas-feiras e conta um pouco da sua história de vida, como ele entrou e saiu das drogas e como o tratamento mudou a sua vida. Isso é uma inspiração!”

Por ser um espaço sagrado, a partir do momento que o morador de rua entra no CRSA, ele é instruído de que naquele local não deve haver preconceito, racismo, palavrões e brigas; somente o amor e o respeito. “Falamos da importância em estarmos ali reunidos; do amor de Deus e agradecemos por tudo o que temos ao nosso redor, sem interferir na religião de cada um, mas sempre incentivando a busca de Deus.”

Segundo Carlinhos, o alimento é a porta de entrada para muitas oportunidades, inclusive de mudança de vida, sem imposição, somente amando o próximo. “Como a correria é grande, eu chego em casa bem cansado, mas vale a pena! Todos os dias tem uma surpresa boa. No café, o nosso lema é que o amor começa na escuta, porque quando paramos para ouvir a história do outro é que começamos a entendê-lo um pouco melhor”, finaliza.

Mesmo após o fim da pandemia, existem planos de manter e até ampliar o Café Solidário. Porém, como a demanda do CRSA é muito alta em períodos normais, o espaço não comportaria este projeto. E os voluntários já sabem: terão que buscar recursos e providenciar outro local para o atendimento da população de rua.

Doações

As doações são sempre bem-vindas, seja de alimentos (pão de forma, queijo, presunto, margarina, biscoitos, pó de café, leite, achocolatado, açúcar), descartáveis (guardanapo, copo 300ml, colher de sopa, garfo, touca e luva tamanho M e G), roupas, calçados e cobertores novos ou usados e produtos de higiene e limpeza (sabonete, desodorante, detergente neutro, água sanitária e sabão em pó). As entregas devem ser feitas no CRSA (Rua Ubaldino do Amaral, 204), diariamente, das 16h às 18h.

A mensagem do papa para o IV Dia Mundial dos Pobres

No dia 15 deste mês, celebramos o IV Dia Mundial dos Pobres, com o tema “Estende a tua mão ao pobre” (Ec 7,32). Em sua mensagem para a data, Papa Francisco questiona a Igreja: “Como podemos contribuir para eliminar ou pelo menos aliviar a marginalização e o sofrimento do pobre?”

O pontífice convida a comunidade cristã a envolver-se nesta experiência de partilha, pois o gesto de estender a mão é um sinal que apela imediatamente à proximidade, à solidariedade e ao amor. A mensagem ainda menciona as várias mãos que se estenderam durante a pandemia e ressalta a mão do voluntário que socorre quem mora na rua e não têm nada para comer.

“Todos os anos, com o Dia Mundial dos Pobres, volto a esta realidade fundamental para a vida da Igreja, porque os pobres estão e sempre estarão conosco para nos ajudar a acolher a companhia de Cristo na existência do dia a dia.” (Papa Francisco)

:: Confira a mensagem do Papa para o IV Dia Mundial dos Pobres, na íntegra. (CLIQUE AQUI)

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