O pecado estraga a vida

0
47

O primeiro estrago do pecado não atinge a vítima dele, mas aquele que o comete.

No artigo anterior, falamos sobre o conceito de pecado e os equívocos que o envolvem. Tomemos hoje o tema dos prejuízos do pecado, pois ele tem seu preço. Se pecado é tudo aquilo que vai contra a vida, especialmente a vida humana, então ele deixa suas marcas na vida; ele a estraga, a diminui, a deprecia. Não é difícil observar os estragos que o pecado tem feito na família, na comunidade de fé, na sociedade em geral, na vida de cada um de nós.

Vejamos: se a raiva é uma fraqueza e começa a fazer ninho no nosso coração, pode ser que, alimentando essa raiva (ou o ciúme, ou a inveja, ou qualquer outra fraqueza que não é bem digerida), uma hora, venhamos a nos deixar dominar pela violência e acabemos deixando o pecado fazer graves estragos. Tomemos o relato de Caim e Abel como caso exemplar (cf. Gn 4,1-16). Caim começou a olhar para seu irmão com irritação (v. 6). Em vez de administrar esse sentimento e transformar sua fraqueza em força como companheirismo, partilha, Caim se deixou dominar pela cólera e avançou contra seu irmão, matando-o. Bem que Deus o advertiu, mas foi em vão (v. 6-7).

Caim representa o forte, pois seu nome quer dizer ferreiro, aquele que tem a arma contra o outro. Abel representa a fragilidade e a fugacidade da vida, que precisa de cuidados para sobreviver, para prosperar, e seu nome significa bem isto “sopro, aquilo que se desfaz facilmente”. Ora, o autor sagrado sabe que o forte deve proteger o fraco, guardá-lo, não oprimi-lo ou dominá-lo. E Caim fez o contrário: vendo a fragilidade de seu irmão, atacou-o e destruiu sua vida. Assim que Caim comete o pecado contra Abel (homicídio ou fratricídio), Deus vem tirar satisfação, pois ele é o Deus da vida. E pergunta a Abel: “Onde está o teu irmão?” (v. 9a). E o mal educado responde: “Sei lá! Por acaso sou o guarda de meu irmão?” (v. 9b). Mas Deus não deixou passar barato: “Que fizeste?” (v. 10). E pediu satisfação do sangue de Abel.

Observemos, neste relato, os estragos que o pecado deixou. Primeiramente em Abel, o homicida. Desde que Abel consentiu matar Caim, ele já não andava mais de cabeça erguida e seu rosto tornou-se abatido (v. 6b). Ao matar Abel, o solo clama por Deus, pedindo justiça pelo sangue do justo (v. 11-12). O primeiro estrago do pecado não atinge a vítima dele, mas aquele que o comete. Maltratado pelo peso de seu próprio erro, Caim vive cabisbaixo. Sabe que a ira o está dominando; está sendo derrotado por ele em vez de vencê-la. E “a terra clama por justiça”, ou seja, um desequilíbrio se instalou no cosmos: a harmonia dos seres foi rompida. Caim vai sentir na pele o peso deste desequilíbrio. E foi aí que ele se afastou da presença do Senhor (v. 15): eis um duro preço a pagar pelo pecado.

Mas há outros estragos. Há, por exemplo, um estrago na família; após a morte de Abel, Caim fugiu e foi morar na região de Nod (v. 16). Não dava mais para viver harmoniosamente naquele ambiente familiar. A partir de então, a família estava dilacerada pelo erro de Caim. E há também estragos na sociedade inteira. O pecado por onde passa faz como um tsunami: deixa seu rastro de destruição.

Observemos, porém, que em todo o texto não se nota nenhuma raiva ou vingança de Deus em relação a Caim. Ao contrário, quando Caim cai em si e vê a bobagem que fez, entende logo que vai pagar por isso. Sendo expulso daquela terra que o rejeita, Caim tem medo de vagar sem Deus e ser morto por qualquer forasteiro que queira vingar Abel (v. 14). Na sua misericórdia, Deus vai proteger Caim, lançando uma maldição (v. 15). De fato, Caim fez enorme besteira de matar seu irmão, mas besteira maior fará quem perpetuar a corrente da violência tentando fazer justiça com as próprias mãos. E o Senhor pôs um sinal em Caim (v. 15b); um selo do seu amor misericordioso que revelasse sua pertença a Deus, apesar de sua miséria. Notemos também que Caim afastou-se da presença do Senhor (v. 16) e não o Senhor afastou-se de Caim, coisa impensável para o autor sagrado. Deus, no seu imenso amor, não nos afasta dele por causa de nosso pecado, ao contrário se achega a nós para nos advertir e nos reconduzir ao caminho. Seu amor é fiel; ele não nos abandona jamais.

Depois de entender o texto, acho que já dá pra intuir o que a catequese tem a ver com essa reflexão. Primeiro, o pecado tem suas consequências e a catequese deve advertir quanto a isso. A primeira vítima de nossos pecados somos nós mesmos. Segundo, na luta contra o pecado e seu poder de destruir, só o amor misericordioso de Deus pode nos socorrer. A catequese deve incentivar os catequizandos a mais plena confiança na misericórdia de Deus.

 

Solange Maria do Carmo

Doutora em Teologia

(Revista Perpétuo Socorro Março/Abril 2015)

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, escreva seu comentário!
Por favor, indique o seu nome aqui